caixa-preta
do muito ou pouco que se resgatou dos escombros
“Diga em suas orações, Michel, que a solidão, o desejo e a saudade são mais do que conseguimos suportar. E sem eles, perecemos. Diga que tentamos receber e dar amor, mas nos perdemos no caminho.”
A Caixa-preta, Amós Oz
— belos braços, os seus.
— obrigado.
— ih, só mais um padrão que se acha.
— nada disso: anos de análise, até aprender a aceitar elogio.
— tá sozinho?
— tô.
— me beija?
— beijo.
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— pescocim de grilo!
— para!
— mas é, ó: bem finim.
— para de rir! sai!
— saio não!
— brincadeira besta.
— venha cá, venha, meu pescocim de grilo!
— me larga!
— largo não, largo nunca mais.
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— te amo muito, sabia?
— sabia. só não me ama mais do que o tantão assim que eu te amo, ó.
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— tão na frente da televisão?
— o quê?
— meus pés.
— tão não.
— nunca vi Globo Rural ser o programa favorito de ninguém.
— como não? se hoje eles vão até ensinar a deixar a flor do maracujá mais bonita.
— uau, nossa, realmente imperdível.
— agora coloca as pernas aqui em cima da minha barriga, que teus pés tão na frente da televisão.
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— tu é muito cheiroso, sabia?
— não, que nem cheiro eu sinto.
— cheirinho bom bem aqui, ó, na nuca.
— e eu tenho cheiro de quê?
— cheirinho de neném.
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— eu preciso que tu venha correndo aqui pra casa, já vomitei o quarto inteiro.
— tá.
— vou deixar a porta da sala aberta just in case, pode ser que eu desmaie.
— sempre o drama, sempre o drama...
— tu vem?
— em quinze minutos eu tô aí.
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— do que tu tá rindo?
— disso aqui que tu colocou no livro.
— por quê?
— porque é muito facilmente um negócio que tu diria.
— então tá aprovado?
— parabéns, meu amor, você escreveu um livro maravilhoso.
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— brigado pela surpresa hoje, meu amor.
— gostou?
— gostei muito.
— não dava pra deixar passar em branco. o bolo tava bom?
— uma delícia.
— pena só que não achei vela.
— não faz mal, foi um aniversário perfeito.
— ...
— ei...
— oi.
— te amo.
— eu que te amo. já tomou o antibiótico?
— uhum.
— ótimo. agora vá descansar, que eu vou só terminar de lavar a louça e aí já já troco teu curativo.
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— aquela filha da puta, escrota do caralho, vampira imunda, o único jeito de eu me ver livre dessa porra dessa bruxa que só quer destruir minha vida é ela morrendo, ela precisa morrer, ela precisa morrer, ela
— eu odeio quando você fala da sua mãe assim.
— e eu odeio que você me julgue sem saber de tudo o que eu passei.
— eu sei de tudo o que você passou.
— do que tu tem medo?!
— medo que, um dia, se a gente brigar, se a gente terminar o namoro, você me trate com tanta crueldade assim.
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— aaaaahhhhh, o teu sexo é o meu melhor sexo da vida.
— ...
— e o teu?
— ... o quê?
— meu sexo é o teu melhor sexo da vida?
— ...
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— nenhuma força virá me fazer calar, faço no tempo soar minha sílaba, canto somente o que pede pra se cantar, sou o que soa eu
— para de cantar tão alto assim!
— a gente tá no meio de um show!
— as pessoas estão olhando!!
— e daí, porra?
— calma, vem cá, eu
— não encosta em mim, não fala nunca mais comigo!!!
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— hoje o meu dia foi difícil pra caramba.
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— tu não vai falar nada?
— tu manda quinhentas mil mensagens por dia, só reclama o dia inteiro, tu espera mesmo que eu vá responder a cada encheção de saco tua?
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— eu não acredito que tu fez isso comigo!!!
— não seja tão reativo.
— só estou sendo reativo porque, primeiro, quem agiu errado foi você!
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— ...
— desculpa, eu não devia ter ido reclamar.
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— pois, por aqui, eu não tô nada bem. não como direito, não durmo direito. tá muito difícil.
— Puxa, eu sinto muito! Nessas horas de tristeza ou angústia, procure encontrar um amigo para consolá-lo! Quem sabe alguém da faculdade ou mesmo um confidente — o importante é não se deixar abater pelas circunstâncias. Não é sobre se isolar, é sobre encontrar apoio naqueles que você ama. Não é sobre superar sozinho, é sobre respeitar o próprio tempo. Já experimentou sair de casa ou, quem sabe, comer uma comida gostosa?
— ...
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— vovó T. morreu.
— ...
— ...
— ...
— tu não vai falar nada?
— meus pêsames.
— não paro de chorar.
— ...
— será que tu poderia, por favor, vir aqui em casa?
— cansado demais. acho que amanhã, pela hora do almoço, consigo dar uma passada rapidinho aí pra um abraço.
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— o que pra mim é mais engraçado é que, mesmo depois desses quatro anos, eu posso dizer que eu te amo, mas até aí ok, porque, pra mim, o amor é um negócio que você vai construindo ao longo dos anos, ele vai é se fortalecendo com o tempo, então normal, normal ter amor numa relação longa, mas não é só isso, o impressionante é que, mesmo depois desses anos todos, eu ainda posso dizer que sou apaixonado por ti, o que é uma loucura, porque, na minha cabeça, paixão é uma coisa que dá e passa, é passageira, é fugaz, não se prolonga no tempo, enfim, desculpa a língua engrolada, em resumo, tudo isso pra te dizer que, que loucura, isso não faz o menor sentido, eu te amo, mas também ainda sou muito apaixonado por ti.
— ...
— ...
— ...
— e tu?
— ...


Ah, os amores interrompidos...
Doeu…