depois do hiato,
um haicu.
Haicu
não era exata-
mente o(u) coração o que
você preenchia.
(Toda literatura é uma forma de vingança. E toda literatura é, como toda forma de vingança, anódina. Voltar a escrever, propósito ao qual me presto hoje, depois de um feitiço com alcaçuzes e cravos, voltar a escrever, portanto, é inútil, como é inútil tentar criar o que quer que seja, do amor à palavra no papel.
Eu queria mesmo era construir uma ruína, igual ao monge descabelado que você encontrou no caminho, Manoelim, embora eu saiba, eu, você, ele saibamos, que toda ruína é uma desconstrução. Melhor seria porque, que enfado infinito, se o que um dia tentou se erguer sempre se arruína, melhor mesmo era começar pelo final. Saltamos etapas, completamos o ciclo, beijamos direto na boca, de olhos abertos, abertíssimos, que é como eu costumo beijar durante os paroxismos do sexo, o destino inevitável de todas as coisas.
Escrevi este poemículo enquanto, zumbificado, fazia tríceps corda na academia, sob instrução da Doutora H., psicóloga que, à ocasião, eu precisava ver duas vezes por semana. Escrevi ou ele se me revelou, não sei, escrever é um ofício esquisito, uma forma de mediunidade, às vezes a frase vem prontinha, você só colhe, morde, se envenena. Escrevi outros também. Agora que tudo passou, agora que a tristeza virou raiva e, logo mais, quase, quase, coisa nenhuma, talvez eu os publique. Aqui, ali, alhures. Logo se esgota — desce ao esgoto.
De toda forma, o de que eu preciso mesmo, aquilo a que me proponho, aquilo que me exige anúncio, é escrever algo mais permanente, meu próximo romance. Próximo do próximo, aliás, porque o próximo mesmo sai ano que vem.
E não agora, agora, porque estou entrando de férias.
Não tem jeito, não tem jeito. Escrever é inútil, como é inútil me vingar. A vingança eu já, já deixo de lado (não ainda), mas escrever, que sina, vejo agora, vejo mais uma vez, vejo e escuto como o barulho de trovão que meus dedos produzem sobre o teclado, vejo e escuto como o barulho de um cinturão de dinamites produzindo a ruína de um prédio, escrever não tem como deixar de lado. Aguentem vocês, aguente eu, aguente quem tiver que aguentar.)


"... escrever é um ofício esquisito, uma forma de mediunidade..."
Eu que o diga.